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50 anos de saúde e história na Aldeia
Por Paula Coruja

Onde hoje é a radiologia (na Rua Dr. Luiz Bastos do Prado) era a porta da pequena Casa de Saúde do Dr. Sircks.
A criação do Hospital Dom João Becker é parte importante da história recente de um dos municípios que mais cresce no Brasil. Da transformação da antiga casa de saúde ao hospital equipado com os mais modernos instrumentos, que realiza procedimentos de alta complexidade, foram 50 anos de muita luta, abnegação, cuidado e caridade de uma série de pessoas, a maioria delas anônimas, que continuam construindo essa história.
Quando o Dr. Alexandre Sircks, conhecido médico em Gravataí nas décadas de 40 e 50, quis fundar sua casa de saúde, ele não imaginava no que poderia se transformar aquela instituição. A Casa de Saúde Coração de Maria era uma pequena residência que ficava onde hoje é a Rua Dr. Luis Bastos do Prado, que, na época, não era nome de rua, mas sim de outro famoso médico gravataiense. A grande enchente de 1941 teve efeitos destruidores não só em Porto Alegre, mas em toda a região. Gravataí ficou completamente isolada de qualquer recurso médico, o que acabou se tornando o estopim para a criação da primeira casa de saúde do município.
Na época, a Av. José Loureiro da Silva já era a mais importante da cidade, mesmo não contando nem com calçamento. Onde hoje é a entrada do hospital, era um grande terreno baldio, que servia de "parque de diversões" para os meninos que por ali viviam. Entretanto, na rua detrás era plantada a semente do que é hoje o melhor hospital do Vale do Gravataí.
Em 1958, o Dr. Sircks, que já vinha em tratativas com a Congreção das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, vendeu a Casa de Saúde às religiosas, que fecharam o prédio por quase 15 meses para reformas e ampliação. Em 1º de fevereiro de 1960, homenageando o primeiro Arcebispo de Porto Alegre, era inaugurado o Hospital Dom João Becker, ponto em que começa a nossa história - a história de médicos, religiosas, funcionários que constroem diariamente a instituição que é um pilar importante para a saúde do município.
A direção técnica começa com 1 a 0 para o Grêmio
Logo que o hospital foi reaberto para a comunidade, em 1960, as atividades hospitalares eram limitadas. A instituição contava com um total de apenas 14 leitos, sem nenhuma sala destinada para cirurgias. A diretora do hospital na época, Irmã Beatriz Volpato, já tinha ideia de ampliar o local e, para isso, contou com a ajuda no Dr. Hélio Dourado na direção técnica da casa. Os gremistas acharam o nome familiar? Pois é mesmo. O primeiro diretor técnico do hospital foi Presidente do Grêmio Football Porto-Alegrense e fez a ampliação do estádio Olímpico, que passou a ser conhecido como "monumental", devido à grandeza da construção. O médico ficou à frente do hospital de 1960 a 1964, quando outro médico, novo na cidade, assumiu a direção, o Dr. Floriano Torres.
Quem vê telhados, nem sempre vê o futuro
Mais de 10 mil partos e cesarianas depois, não dá para dizer que o Dr. Torres é novo na cidade. O médico, que já vinha sendo sondado para vir para Gravataí já em 1958 pelo Dr. Luiz Bastos do Prado, tem sua história misturada com a do próprio HDJB.
Quando atuava no município de Casca, Torres foi convidado pelo Dr. Luiz para vir para Gravataí. Na época, o médico sonhava em abrir a própria casa de saúde na cidade e precisava de alguém para a maternidade. Ao pedir a outro amigo uma indicação, surgiu o nome de um médico novo, mas muito competente, que vinha atuando no interior do estado. A carta convite do Dr. Luiz chegou em 1958.
Ainda não era a hora, mas o trabalho fez com que o jovem médico tivesse que passar por Gravataí. "Meu pai sempre dizia que, se a gente quisesse saber sobre o progresso de uma cidade, era necessário olhar para os telhados dela. Quando eu passei pela principal avenida e vi aquelas casas com telhados velhos, fiquei desconfiado. Tive uma má impressão", lembra rindo.
Só que o que Torres não sabia é que a cidade um dia se desenvolveria e, de um jeito ou de outro, ele acabaria criando raízes por aqui. Bianor Fonseca, farmacêutico gravataiense, tinha uma loja também em Porto Alegre, que era vizinha ao escritório do sogro de Torres. Como já havia a proposta de vir para Gravataí, Bianor convidou a esposa do médico para conhecer a cidade. Como nesta época estavam em Casca, município que ficava distante da família em Porto Alegre, a proposta se tornou ainda mais tentadora. "Sabe como é quando a mulher decide", brinca o médico.
Quando chegou, em 1963, o Dr. Luiz já estava bastante doente. A esposa dele, a escritora Maria Dinorah, foi direta e disse a Torres que, se quisesse tocar com o sonho da casa de saúde, deveria fazê-lo sozinho, pois o próprio Dr. Luiz não tinha mais saúde para isso. O médico acabou falecendo em 1963 mesmo, ano em que Torres fincou o pé na cidade e no hospital.
De lá para cá, o médico viu de perto o progresso da instituição, alternando dois períodos na direção técnica da casa, de 1964 a 1971 e depois de 1992 a 1999, e atendendo pacientes até hoje, aos 75 anos. "Inaugurei os dois blocos cirúrgicos do hospital, o laboratório, os berçários, passei por todas as obras de ampliação. Eram tempos mais difíceis, mas é bom poder ver o resultado hoje", orgulha-se. Entretanto, o médico ressalta que ainda é necessário fazer mais. "Uma das grandes necessidades do hospital é uma UTI neonatal e pediátrica. O hospital cresceu muito, mas ainda precisa crescer mais", salienta.

Após 50 anos, o HDJB é referência em saúde do município.
Posso pegar esse espacinho?
Falando em laboratório, quem tem a própria história misturada às centrífugas, tubos de ensaio e microscópios do HDJB é a Irmã Julieta Sperandei. Dona de um sorriso contagiante, chegou ao município em 1968, para trabalhar na farmácia do hospital. Com a expansão gradual dos serviços, Irmã Julieta foi a responsável, em 1970, pela implantação do primeiro laboratório para análises clínicas.
A luta para chegar ao status atual, detentor da maior nota por oito anos consecutivos da avaliação realizada pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, foi árdua e começa em meros 60 m², no espaço onde funcionava a recepção da emergência do SUS. Em 1970, o laboratório contava apenas com a própria Ir. Julieta para análise dos exames, também com poucos equipamentos, mas que,
como eram de boa qualidade, funcionam até hoje. "O engraçado é que a empresa que os fabricava já faliu há muito tempo, enquanto eles seguem firmes aqui", diverte-se lembrando. Muitos foram aposentados não por falta de funcionamento, mas pelo surgimento de novas tecnologias em análises, agilizando os exames. Estes, inclusive, eram apenas 300 por dia durante muito tempo. Agora são mais de 1,3 mil diários.
Outra coisa que ficou na história foi o espaço, que hoje é de 290 m². "Sempre que se desocupava um espacinho no hospital ao redor do laboratório eu corria lá pela pedir", conta. A sorridente religiosa há muito não trabalha mais sozinha e hoje divide o amplo espaço com outros 40 profissionais, em três turnos, adicionando agilidade aos exames realizados no hospital.
Era só para assinar
um papel
Quando a Congregação pediu que a Irmã Domingas Durante viesse de São Paulo a Porto Alegre, alertou que seria uma viagem rápida, só para assinar um papel. Em 1972, o papel foi assinado, mas os planos mudaram e Domingas foi transferida para Gravataí, para atuar no HDJB. "Não voltei nem para buscar minhas roupas. Foi tudo me enviado pelo correio", relembra.
Na época, o hospital já era maior que a pequena casa reaberta em 1960 e precisava de profissionais para outras áreas. Para tanto, Ir. Domingas buscou a formação de Técnica em Nutrição, curso que era oferecido pelo Colégio Americano, em Porto Alegre. Entre estudos e trabalho, viu o crescimento do hospital e, junto com ele, presenciou todas as dificuldades ao longo dos anos. "Tínhamos uma boa turma trabalhando dia e noite, mas faltava dinheiro até para a comida. Um sufoco!", lembra.

Irmã Domingas veio apenas para assinar um papel, mas acabou criando raízes na Aldeia.
Irmã Domingas lembra que, ao contrário do que se espalhava pela cidade, não havia dinheiro sobrando para investimentos. "Houve um tempo em que o INPS (hoje SUS) pagava bem os gastos dos atendimentos. A primeira coisa que fizemos quando sobrou um dinheirinho foi construir a lavanderia, que até pouco tempo, ainda era a maior do estado", conta.
Mesmo e com dificuldades, parar nunca foi uma opção. Quando surgiu a oportunidade de adquirir o terreno ao lado do hospital, onde hoje é parte nova inaugurada em 2006, as religiosas não hesitaram. "Nossa! Foram cinco minutos de loucura! Achávamos que poderíamos aproveitar a parte construída do terreno e compramos. Depois que ficamos sabendo que seria necessário destruí-la, pois não tinha estrutura", confidencia. Para ela tudo acabou dando certo porque contaram com uma outra ajudinha. "Houve a mão divina da Madre Bárbara, nossa fundadora, senão não estaríamos aqui funcionando."
E a Irmã Domingas, que veio só para assinar um papel, faz parte desta história há 38 anos, sempre atuando na cozinha, começando pelo antigo fogão à lenha ao fogão industrial. Das iniciais três pessoas, hoje o setor conta com 38 profissionais, entre nutricionistas, copeiras, cozinheiras e estoquistas. "Temos um grupo ótimo de funcionários no hospital todo, sem os quais não seria possível construir e fazer tudo funcionar tão bem até hoje", conclui com um sorriso.
A ecografia chegou
de monza
Há pouco mais de 30 anos, quando começaram a atuar no HDJB, os radiologistas Dr. Rubens Manoel Terra Lucas e Dr. Paulo Silva enfrentaram muitas dificuldades pelas limitações técnicas da época. "Não era um problema só do nosso hospital: era de tecnologia mesmo. Tentávamos fazer o possível com os recursos da época, para obter diagnósticos por imagem mais precisos, mas era sofrido", conta Silva. O sofrimento incluía fazer exames de raio-X com contraste, por exemplo, o que nem sempre dava certo. "Tinha paciente que passava mal, ou que precisava ficar quase 24 horas em jejum. Hoje tudo isso é facilitado por ecografias, tomografias e ressonâncias."
A chegada dos aparelhos para este tipo de exame demorou um pouco a aparecer no HDJB. Muitas vezes, precisou de uma ajudinha dos próprios médicos para, literalmente, chegar. "O primeiro aparelho de ecografia do hospital era usado e foi trazido em 1992. Fui buscá-lo pessoalmente em Porto Alegre no meu monza mesmo", lembra o Dr. Paulo.

Dr. Paulo acompanhou o crescimento do setor radiológico do hospital.
A cidade não ficou desassistida neste ínterim. Em 1984, este tipo de exame já era disponibilizado pela Raio Som, que, desde sua fundação, faz parceria com o HDJB. Com o tempo, outros equipamentos foram adquiridos para que o hospital conseguisse fazer frente às crescentes necessidades. A tomografia computadorizada está disponível desde 2004 e é possível realizar ressonâncias magnéticas no hospital desde 2006. Além disso, há mais salas de raio-X, com equipamentos novos e que permitem que os exames sejam digitalizados, fazendo com que em cinco minutos o médico já tenha a imagem captada no seu computador para interpretação do resultado. "O Dom João Becker deixou de ser uma casa de saúde para se tornar, hoje, um hospital de respeito", conclui o médico.
Os que não deixam a máquina parar
Quando Márcio Gonçalves da Silva chegou ao Hospital Dom João Becker, em 1997, se sentiu imediatamente acolhido. O emprego era como pintor, no setor de manutenção. Com muito trabalho, se tornou supervisor do departamento, conhecedor de todos os procedimentos realizados e de olho no futuro.
"O mais gratificante de trabalhar aqui, além de ser o que gosto, é a autonomia que temos dentro do departamento. Sinto-me realizado também pela confiança que as irmãs depositam em mim." De fato o setor é dos mais importantes. Todos os consertos, de cadeiras a respiradores, passam pela manutenção, que conta com uma equipe especialmente treinada para atender às demandas. "O treinamento é fundamental, já que lidamos com maquinário vital para o funcionamento do hospital. Leva-se em média seis meses até que um técnico possa atender sozinho uma ordem de serviço da UTI, por exemplo", conta o supervisor.
Junto com Márcio, a Irmã Edite Magagnin também é responsável pelo zelo ao patrimônio da instituição. Entretanto, a história da Irmã Edite com o hospital gravataiense começa muito antes, na década de 1970.
Na época, o local era muito pequeno e Irmã Edite chegou para trabalhar no plantão noturno da enfermagem. "O hospital era minúsculo. Quando era necessário chamar um anestesista, que não tínhamos aqui, se usava um telefone à manivela, veja só". A religiosa conta que, em tempos difíceis, quando a urgência chegava, muitas vezes fez doações de sangue na hora, já que seu tipo sanguíneo é O negativo, o doador universal. "Eu e outra irmã fizemos isto muitas vezes. Nós salvávamos vidas", conta.

Irmã Edite e Márcio estão sempre atentos aos cuidados com o patrimônio do hospital.
A disposição para ajudar sempre foi levando-a, aos poucos, para o setor de manutenção. A Irmã conta que sempre ajudava outra colega que cuidava do setor e, quando ela faleceu, acabou assumindo as funções. "Por um lado foi bom, pois quanto mais o tempo passava na enfermagem, mais eu me envolvia, sofria demais com a dor do outro. Aqui também estamos sempre servindo, fazendo de tudo para ver todos satisfeitos. Pude continuar servindo com paixão".
Trabalhando no lugar onde brincava
O menino que brincava no terreno baldio ao lado de casa, na Av. Loureiro da Silva, hoje volta ao mesmo local para trabalhar. A infância, ao lado do local que viria a ser o hospital, acabou sendo fundamental na escolha da vocação de Caubi Manoel da Nóbrega. "Com certeza, ter crescido ao lado do Dom João Becker influenciou muito a minha decisão de ser médico. Essa percepção do hospital mudou minha vida", conta o Dr. Caubi.
O médico plantonista ainda se surpreende ao voltar atrás e lembrar dessa história. "O hospital acompanhou o crescimento da cidade. A dedição para manter a instituição atualizada, moderna é impressionante. Se tivesse sido administrado de maneira errada, talvez ainda fosse aquela pequena casa de saúde", analisa o médico.

Dr. Caubi acredita que o hospital da Aldeia não perde em qualidade para nenhum outro do mundo.
Para Caubi, os problemas políticos ocasionados pelo SUS fazem com que a população desconheça muito do que já existe de avançado sendo feito aqui. Para que um procedimento seja gratuito para a população, é necessário que seja permitido pelo Sistema Único de Saúde e o processo de autorização é muito longo. "É injusto o que algumas pessoas ainda dizem - que o nosso hospital não tem estrutura. No INCOR, por exemplo, são realizados procedimentos cardíacos avançadíssimos. O que é feito hoje aqui em Gravataí é o mesmo feito em hospitais conceituados no Brasil e no exterior", argumenta.
Cuidando da população
e das outras irmãs
Quando a Irmã Lilian Jung chegou para trabalhar no bloco cirúrgico do HDJB em 1972, não havia anestesista na casa, a esterilização era realizada no próprio bloco cirúrgico, que tinha apenas duas salas e apenas cerca de 15 cirurgias eram realizadas por dia. Hoje o bloco é mais moderno, com oito salas em atividade, que realizam em torno de 75 procedimentos diários. "Tínhamos condições, mas ainda eram precárias. Fazíamos de tudo, esterilizávamos e trabalhávamos na recuperação dos pacientes. Eu era muito rigorosa, tanto que não tínhamos infecções", lembra.
Depois de todo o tempo de dedicação ao hospital, no bloco, no plantão e na emergência, hoje a Irmã Lilian continua se dedicando a cuidar da saúde e bem-estar. Contudo, a religiosa se dedica ao cuidado com as outras Irmãs, especialmente as mais idosas, que vivem na residência das irmãs em uma casa próxima ao hospital. "É importante continuar servindo", disse.

Irmã Lílian comemora o crescimento do bloco cirúrgico do HDJB, setor em que iniciou no hospital, em 1972.
Unidade de
conforto intensivo
"A UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) tem uma semântica especial de funcionamento, já que trata de pacientes terminais. Seguimos o mandamento que manda amar ao próximo como a si mesmo, confortando, trabalhando com dedicação, comemorando cada pequena vitória". Dessa maneira o Dr. Francisco Turnes define o setor pelo qual é responsável desde sua implantação, em 2000 - ano em que chegou ao HDJB.
A implantação da UTI, uma necessidade reivindicada pela comunidade, foi simples, segundo o médico. "Quando cheguei aqui já estava tudo pronto. Era apenas questão de começar a atender", lembra o Dr. Turnes. Os aspectos técnicos foram preenchidos ao longo dos anos, como número mínimo de leitos, uma retaguarda cirúrgica grande, serviços laboratoriais e radiológicos e uma equipe de enfermagem treinada.
A unidade abriu com seis leitos funcionando, mas a estrutura para outros quatro já estava pronta e logo estes também entraram em operação. Por causa do quadro clínico dos pacientes, a maioria crônicos, com doenças adjacentes, a equipe precisa, muitas vezes, confortar a família dos pacientes, mais do que os próprios doentes. "Uma vez questionaram a Madre Tereza de Calcutá se ela não sentia que todo aquele esforço era só uma gota no oceano. E ela respondeu ‘Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota’. Isto é o que buscamos: uma gota a menos no oceano", conclui.
O hospital não para enquanto a cidade dorme
Durante o turno da noite, quando a cidade se recolhe para descansar, um grupo de trabalhadores segue firme, zelando pela saúde de Gravataí. O Hospital Dom João Becker é uma máquina feita de material humano que funciona dia e noite. "Tem gente que acha que a noite é um período calmo, mas só nós sabemos o quanto precisamos correr para atender a todos bem", diz a Técnica em Enfermagem Iracema Costa Melo. Para se manter de portas abertas durante 24 horas, o HDJB conta com um grupo de plantonistas forte para atender às demandas sem aviso prévio, da emergência aos pacientes internados. "Precisamos estar alertas, pois junto com o hospital, cresceu o número de pacientes e de exigência", conta a Enfermeira Marcelle Dorghi, que atua há seis anos na instituição.

A equipe da UTI trabalha para que os pacientes e seus familiares tenham conforto.
O trabalho neste turno não se difere em nada do oferecido durante o dia e muitas das situações vividas pelos trabalhadores noturnos são compartilhadas pelos colegas do dia. Entretanto, a noite sempre tem dos seus mistérios e o inusitado pode sempre acontecer. "Anos atrás, recebemos uma visitinha inesperada. Quando vimos, veio um morcego voando pela janela! A situação foi contornada logo e o bichinho fugiu, mas tomamos um belo susto", conta aos risos Daiane Cardoso, que há oito anos atua como Técnica em Enfermagem do hospital e, durante praticamente todo esse período, atuou à noite.
O lado pessoal conta bastante na hora de optar por trocar a noite pelo dia. Este é o caso de Iracema, há 19 anos neste turno. "Tinha os filhos pequenos e, trabalhando durante a noite, eu poderia ficar mais tempo com eles. Com o tempo, a gente acostuma com a rotina". Para Marli Hirt, que faz plantão na farmácia, a opção do horário também foi fundamental para ficar com os filhos. "Por que não, né? Hoje não me imagino mais trabalhando de dia. Cada plantão é diferente. Algumas vezes, mais leve, outras é uma loucura."

Marli, gerente de pessoal, comemora 28 anos de HDJB como a funcionária mais antiga
Dona Maria de Jesus Tolentino, que trabalha na copa, está começando a se imaginar uma pessoa diurna novamente, embora a mudança seja ainda mais radical. "Estou procurando nem pensar muito. Depois de 24 anos aqui no hospital, oito deles só durante a noite, vou me aposentar. Nem imagino como vai ser", conta ela, que pretende, por enquanto, ser apenas avó em tempo integral. "Vou aproveitar que a minha nova netinha está chegando", comemora. A Dona Maria divide a copa com Nara Selmi Ereno, colega de turno há três anos. Juntas, preparam tudo que os colegas precisam para a noite, além dos lanches, cada um com sua particularidade, para os internos do hospital. "Tem bastante movimento normalmente e sempre temos que estar prontas para as emergências. O plantão é bom", conta Nara.
Nova direção
Em janeiro deste ano, tomou posse a nova direção do Hospital Dom João Becker. A direção ficou sob a responsabilidade da Irmã Lia Lauxen, que antes estava na vice-direção. Além disso, Geraldo Leal assumiu a administração da instituição. Entre os grandes desafios, estão a consolidação política de administração por resultados - implantada há dois anos -, a manutenção das contas do hospital saneadas e o aumento da resolutividade - a capacidade de resolver todos os problemas e procedimentos no mesmo local - da instituição. "Houve uma mudança cultural positiva com a implantação da administração por resultados, que gerou um comprometimento maior dos colaboradores e um crescimento no espírito de equipe", conta a Irmã Lia.
Para Leal, o hospital está trilhando o caminho de uma administração cada vez mais moderna. "A nova organização, em 34 unidades de negócios, que trabalham com metas adaptadas à realidade de cada uma delas, está voltada à satisfação dos clientes e colaboradores. Isto já se reflete na melhora dos níveis de satisfação", disse o administrador.
Outro grande desafio, citado por Leal, é a autossustentabilidade. Para o administrador, é preciso ter a percepção de que o hospital funciona como qualquer outra empresa, que gera renda e empregos, tendo o produto, no caso, a saúde, como grande diferencial. "Em 1991, tive uma passagem pelo HDJB. Na época, havia pouco mais de cem funcionários. Hoje são 800, sem contar todos aqueles terceirizados. Isto prova que investir no hospital não ajuda apenas na saúde do município, mas também na economia local", argumenta.
Atingir as metas administrativas acabam se refletindo em benefícios para a comunidade, com a ampliação de serviços. "Precisamos ainda de reformas em alguns setores, como o centro obstétrico, além da ampliação do número de leitos da UTI, que já teve o estudo iniciado", afirma a Irmã Lia. Além disso, a ampliação do serviço de traumatologia está sendo negociada e, assim que a resolutividade do serviço de cardiologia começar a realizar procedimentos ainda mais complexos, poderá ser credenciado para atender o SUS.
O atendimento gratuito, segundo a Irmã Lia, é o que tem gerado maior satisfação entre os clientes do hospital. "Os setores que atendem o SUS são aqueles com mais elevado índice de satisfação. O hospital é de todos, por isso é tão gratificante", conclui a diretora.
Referência em cirurgias

Em maio de 1970, após o credenciamento no INPS, o cirurgião Dr. Issao Ymay conseguiu uma vaga no hospital de Gravataí, onde se dedica até hoje à cirurgia. O médico nissei, natural de São Paulo, se orgulha por ter feito parte destes 50 anos de HDJB e hoje é o segundo médico mais antigo da instituição. "Algumas condições no início eram precárias, mas, por incrível que pareça, nunca tivemos uma infecção", relembra o médico, comprovando o que já dizia a Irmã Lilian.
Sobre estes tempos, inclusive, o médico lembra do pouco material, das poucas salas, da esterilização quase manual e dos escassos recursos. "O material cirúrgico da época constava somente de um pacote, contendo uma porta agulha para as suturas, um par de afastadores e seis pinças hemostáticas com dentes, quase impróprias para as cirurgias. Entre um e outro procedimento, esperávamos cerca de 30 minutos para esterilizar os materiais e começávamos a cirurgia seguinte", relata. Entretanto, com a chegada de novos médicos e do investimento da administração da instituição, o setor foi melhorado e mais recursos destinados à aquisição de materiais. "Com a chegada de mais cirurgiões de diversas especialidades, chegou ao que é hoje, um hospital que tem condições de realizar as cirurgias por 24 horas sem parar nas suas oito salas", orgulha-se.

Inicio da construção do prédio localizado na Av. José Loureiro da Silva, no final da década de 1950.

Nos anos 60, o HDJB já estava tomando os moldes rumo à modernização.

Irmãs e funcionárias do hospital, nos anos 70.

A antiga fachada.

Após diversas reformas e melhorias, essa é a nova entrada principal da instituição.
Símbolo da vida!

O alegre menino que ilustra a capa dessa edição é o Cauã Koster (7 meses). O pequenino faz parte do banco de talentos da Up Models e encanta a todos com os seus belos olhos azuis. Segundo a mamãe Maristela (31), o bebê é uma eterna fonte de alegria e descontração. "Ele está sempre sorrindo. Nunca fiquei uma noite em claro por sua causa. Todos sempre me diziam de sua beleza e isso me incentivou a trazê-lo até a agência." Os clicks foram capturados pela Fotógrafa Priscila Abreu, que apostou na desenvoltura e talento do simpático menino. |