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Lia Lauxen: Austeridade e competência

Dona de um acolhedor sorriso, o que não falta à Diretora do Hospital Dom João Becker, Irmã LIA LAUXEN (53), é experiência. Formada em Administração Hospitalar e em Serviço Social, conduz com boa dose de humanidade, desde quatro de janeiro último, a instituição de saúde da cidade. Natural da pequena Walachai, em Morro Reuter, iniciou o caminho de Deus como Irmã, em 1982. Através da vocação, passou a atuar na vida comunitária, uma vez que mantinha o desejo de estar a serviços dos que dela necessitassem.
O que significa administrar um Hospital com 50 anos de serviços prestados em prol da comunidade?
A história registra um legado de muitas realizações em favor da vida. Relendo a trajetória do hospital e ouvindo a fala de Irmãs e de médicos que viveram este caminho, percebe-se o espírito de luta, de coragem, de esperança, de profissionalismo, de superação e, sobretudo, de muito amor. O HDJB, único da cidade, registra um crescimento contínuo tanto na qualificação de sua gestão, como em sua estrutura física e tecnológica. Administrar um hospital cinquentenário, com 797 colaboradores, 205 médicos, com uma média mensal de 16.174 atendimentos ambulatoriais, 907 internações, 142 partos, 787 cirurgias, 49.782 exames e que tem como missão a promoção e defesa da vida, demonstra o tamanho dessa responsabilidade social.
Quais são os projetos a médio e longo prazo e quais os que já estão em desenvolvimento?
A médio e longo prazo, estão a reforma e ampliação do Serviço de Nutrição e do Serviço de Raio X, a ampliação da UTI para mais 10 leitos e a reforma da portaria Central. Estão em desenvolvimento, a ampliação do Serviço de Oftalmologia, a habilitação para alta complexidade, o processo de habilitação para o Serviço de Traumatologia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o estudo para habilitação do Serviço de Hemodinâmica, também pelo SUS.
De que forma a senhora avalia o Sistema Único de Saúde no país? Acredito na filosofia do SUS, pois está entre os melhores sistemas de saúde do mundo. O desafio é a construção desse método com os poucos recursos disponíveis para a enormidade de necessidades que se apresentam no dia-a-dia. A negativa de aceitação dos nossos pacientes nos hospitais de referência para os serviços de alta complexidade em trauma, em Porto Alegre, está colocando em risco não apenas a vida, mas a qualidade de vida dos cidadãos de Gravataí. Esta situação tem motivado a busca de uma articulação entre o HDJB e o Poder Público Municipal para uma saída, junto à Secretária Estadual de Saúde. Entre as lições que tiro, está a certeza de que a solução dos problemas relacionados à saúde devem ser construídos com responsabilidade entre os gestores, os profissionais do setor e a comunidade.
Qual é o tipo de relacionamento que a administração julga ser ideal entre o hospital e a população?
O ideal é conseguir satisfazer as necessidades da comunidade. Hoje, muitos problemas são direcionados para os serviços de saúde, mas percebemos que inúmeros casos são sociais. Há idosos e crianças que acabam adoecendo por não terem quem cuide deles ou por faltarem as condições básicas. Em nossa sociedade, os direitos não são iguais para todos. O acesso à alimentação adequada, à habitação, ao estudo, ao lazer, ao transporte, aos serviços de saúde não estão disponíveis para boa parte da população. O Hospital, através da Comissão de Humanização, da equipe da Pastoral da Saúde, da equipe de Internação Domiciliar, da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e do Corpo Funcional do Hospital tem-se esforçado para que cada vez mais as práticas humanizadoras façam parte do nosso cotidiano.
Quais são as carências mais urgentes a serem supridas no Hospital?
A carência urgentíssima é a reorganização do sistema de referência e contrarreferências do SUS para a alta complexidade, de modo especial para as vítimas de trauma. Esta carência que merece toda a nossa atenção também necessita das três esferas do Poder Público e dos prestadores de serviço. Em médio prazo, a criação de um atendimento qualificado para o idoso, pois, hoje, a família tem dificuldade em fazê-lo. Penso que a criação de um espaço para terapia ocupacional, onde o idoso possa ficar enquanto os familiares trabalham, seria uma alternativa a ser pensada.
Até que ponto as demandas vindas de outras cidades atrapalham a qualidade do serviço hospitalar? Como resolver isso?
As demandas em si não atrapalham. O que dificulta é o não-funcionamento adequado do sistema de referência e contrarreferência, por estar mal direcionado. Podemos citar a demanda de vítimas de trauma, de Traumato-ortopedia e de Neurologia, em que, pela Programação Pactuada e Integrada (PPI) - processo instituído no âmbito do SUS, na qual, em consonância com o planejamento em saúde, são definidas e quantificadas as ações para a população residente em cada território - a nossa referência é Porto Alegre. Esta negativa do atendimento de quem tem a estrutura e os recursos financeiros da PPI acaba onerando nosso serviço e prejudicando sensivelmente a demanda que deveria ser atendida por nós.
A Irmã Lia Lauxen que está em Gravataí desde 2005, além de Diretora do HDJB, já trabalhou nos hospitais São José, de Dois Irmãos e no Arcanjo São Miguel, de Gramado, onde também foi Diretora. Também atuou no Colégio Madre Bárbara, em Lajeado. É formada em Administração Hospitalar e em Serviço Social, ambos pela Unisinos. |