segunda-feira, 6 de setembro de 2010
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Arte é...vidência

Claudia Tajes:

Humor em dose única

Por Cimara Valim de Melo

E assim, ao contrário do que possa parecer,

sempre sobra alguém melhor em mim depois de cada depois.

Claudia Tajes

Pessoas que buscam uma vida um pouco menos ordinária, mesmo sendo as mais ordinárias criaturas. Pessoas que querem um pouco de sossego, mas fazem da vida alheia um verdadeiro carnaval. Pessoas que sonham com o amor perfeito, sem perceber o quanto não sabem amar. Pessoas que fazem tudo errado e, por incrível que pareça, estão sempre se dando bem. Pessoas de todos os tipos povoam as ousadias literárias de Claudia Tajes, que une, em cada texto, leveza, audácia e bom-humor, características responsáveis por encantar os leitores à procura de entretenimento em forma de literatura. A vida em sua multiplicidade cotidiana tem com a escritora gaúcha nuances tragicômicos, que divertem até mesmo os mais sérios leitores, retirando destes, no mínimo, um sorriso lateral.

[...] um problema resolvido não é, necessariamente, um problema a menos.

Vida dura

Foi com Dez (quase) amores (2000) que Claudia Tajes inseriu-se no mundo literário, configurando-se como uma autora que explora os universos feminino e masculino com toda intimidade e nenhum pudor. Estabelece, assim, pontos de contato com o humor de um Luis Fernando Verissimo ou o despojamento de uma Martha Medeiros, mas tais semelhanças se dissolvem frente à audácia intrínseca à literatura tajeana, que lhe confere a devida originalidade.

A semana tem seis dias e uma calamidade pública, o domingo. E o de hoje ainda veio gelado e chuvoso. Na falta de um homem, fico na cama até tarde vendo Fórmula-1. Meu consolo é que tem mais gente devagar nesta manhã. O Rubinho, por exemplo.

Dez (quase) amores

Na obra de estreia, são contadas, em histórias entrelaçadas que mais formam uma espécie de novela, as desmedidas do amor: amores que viraram histórias e histórias que viraram amores. A mulher em busca do homem ideal – mito e utopia – é representada pela figura de Maria Ana, a registrar suas peripécias amorosas. Já em Dores, amores e assemelhados (2002), a autora inova na oscilação do foco narrativo, dando voz aos pensamentos ora de Júlia, ora de Jonas, através dos quais a história vai sendo contada e recontada em um vaivém ininterrupto. Esse caráter televisivo da narrativa torna cada cena motivo de distintos olhares, os quais provocam novos enquadramentos e, assim, novas possibilidades de interpretação por parte do leitor-telespectador. Anterior a esse livro é o romance As pernas de Úrsula (2001), que consolidou em sua produção temas como relacionamentos fugazes, dramas íntimos, sedução e infidelidade, agora na voz masculina, cujo centro é o protagonista Eduardo, que oscila entre uma e outra possibilidade da vida a dois. Tal voz remete-nos também a Leonel, de Vida dura (2003), um homem que dribla as dificuldades a partir de alternativas nada convencionais. Mas voltemos à visão feminina, que ressurge nos livros seguintes, no sofrimento de Jucianara, em A vida sexual da mulher feia (2005), na obsessão de Graça, em Louca por homem (2007) e no medo de Dulce, em Somente as mulheres e as baratas sobreviverão (2009). É ela o norte da escrita de Tajes, que procura desvendar os desvãos da conduta humana na contemporaneidade.

Não importa o que digam. Decidi conversar com você por opção.

A solidão não tem nada a ver com isso.

Somente as mulheres e as baratas sobreviverão.

Porto-alegrense nascida em 1963, Claudia Tajes é, além de redatora publicitária, integrante do seleto grupo que, através do Sarau Elétrico, dá vida às noites de terças-feiras do Ocidente, tradicional bar da capital gaúcha. Entre uma publicação e um dedo de prosa, Claudia conquista lugar juntamente às mais novas vozes da ficção sul-rio-grandense, fato que pode ser comprovado pela popularidade atingida por sua escrita, que já garantiu a adaptação de Dez (quase) amores para o teatro, cuja peça homônima garantiu ao público boas risadas. Não é à toa que, para Carpinejar, a autora apresenta um humor coloquial, pop e acachapante, delineado por um viés de conversa séria em um fundo cômico.

Vida dupla e clandestinidade. Não só tenho dois namorados agora como eles ainda são amigos. Estou pensando seriamente em um exílio no Paraguai.

Dez (quase) amores

Suas narrativas curtas e longas, marcadas por uma linguagem irreverente e erotizada, conduzem o leitor pelos desvãos da vida e do sexo, do amor e da arte. Noite e dia, frio e calor, água e fogo, yin e yang – o embate entre feminino e masculino está no cerne da sua literatura, na qual ambas as forças, opostas e complementares, travam um duelo eterno. E, em meio a elas, temos a ausência gerada pela banalização das relações, superficialidade dos pensamentos e fugacidade das coisas, elementos que recaem sobre o corpo sexualizado do texto literário. Conforme Leticia Wierzchowski, Claudia tem um estilo próprio de fazer literatura e humor, brincando com os fatos mais banais da vida enquanto a gente quase morre de rir com os desenganos. E, quando menos esperamos, lá está ela a oferecer probabilidades ao improvável em meio a essa soma de contrários.

Imagine quanta gente está morrendo neste exato instante. [...] Ou então imagine quanta gente está vivendo todo tipo de coisa neste mesmo instante. Quantos homens broxaram, quantas pessoas gozaram, quantas crianças nasceram? Quantos levaram um chute na bunda, quantos acenderam um cigarro, quantos compraram algo de que nunca vão precisar, quantos estão chorando, quantos desapareceram de casa?

Vida dura

Pessoas que querem ser livres e se prendem a outras. Pessoas que querem estar presas, mas só encontram a tediosa liberdade. Se a vida é um jogo, a literatura também o é – e nesse jogo de avessos, de vida e literatura, mudamos as peças, os participantes, mas são os mesmos os ganhos e as derrotas, que contêm em si os segredos recônditos da mente de homens e mulheres que precisam reaprender a amar. Com Claudia Tajes, o amor contemporâneo e suas (des)necessidades tomam forma literária e, em textos um tanto sádicos, críticos e cômicos, humor e amor podem ser bebidos em dose única, degustados pelo leitor em toda a sua intensidade.

Eu antes de mim

Acho que começou na sétima série, quando me apaixonei por um canhoto e não tive descanso enquanto não escrevi perfeitamente com a mão esquerda – ingênua tentativa de criar uma ligação com o objeto do meu amor, ainda que para isso eu precisasse jogar treze anos de destreza no lixo. Ou então foi antes, lá pelos meus oito anos, no instante em que percebi que um vizinho mais velho só usava roupas vermelhas. Foi o que bastou para eu ter longas crises de choro cada vez que minha mãe me ameaçava com um vestidinho rosa, verde ou amarelo, e o que determinou o eletroencefalograma ao qual fui submetida naquela época. Mulher prática, minha mãe diagnosticou minhas lágrimas como problema neurológico, e não amor.

Ainda dentro deste tema, se eu entendesse de psicoassuntos como minha amiga psicanalista, a Diana, poderia voltar aos meus cinco anos e ao exato momento em que ouvi meu pai dizer que carne boa era carne com osso. Consideração que me fez passar os trinta anos seguintes compartilhando costelas gordas com ele – sem sequer olhar para um filé –, com o objetivo de reforçar os laços de afeto entre nós dois.

Pequenas coisas que fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Uma canhota que só veste vermelho, come chuleta todos os dias e pode ser outra amanhã.

(Louca por homem)

 

 
 
 
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