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Duca Leindecker,
uma letra, um acorde

Por Cimara Valim de Melo
O imaginário é sempre superior a qualquer realidade.
Duca Leindecker
Entre letras e acordes está a produção artística de Duca Leindecker. Primeiramente, em forma de música e, a seguir, também de literatura: foi assim que a arte irrompeu em sua vida e expandiu-se aos limites do infinito. Tanto que, atualmente, o músico porto-alegrense, nascido em 1970, já coleciona diversos CDs gravados e dois livros publicados, além do espaço que conquistou entre os grandes do rock gaúcho. Na música, Leindecker possui uma trajetória intensa de mais de duas décadas, desde que lançou seu primeiro disco solo, aos dezessete anos. Integrante da banda Cidadão Quem, atualmente aposta no projeto Pouca Vogal, realizado em parceria com Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii; juntos, interpretam composições de sucesso das bandas e apresentam novas possibilidades musicais, a partir de uma performance semiacústica que não poupa instrumentos, os quais perpassam viola, violão, guitarra, bombo leguero, pandeiro, gaita de boca e teclado. Duca é casado com a atriz Ingra Liberato, com quem tem o filho Guilherme. Foi para ele que compôs a canção "O amanhã colorido", uma de suas mais populares. Além dela, estão entre as de maior representatividade na Cidadão Quem "Dia especial", "Pinhal", "Ao fim de tudo", "Girassóis", entre outras.
Dos almoços eu ainda escuto as vozes.
Da casa da esquina eu ainda sinto o perfume das flores.
(A casa da esquina)
Passemos à literatura. Em A casa na esquina (1999), sua obra de estreia, percebemos um quê da ‘estética do frio’ proposta por Vitor Ramil, pois temos aí o minuano e a temperatura gélida do sul a compor, de certo modo, a identidade coletiva do povo dessa região, tornando as pessoas mais introspectivas e silenciosas – elemento que, em sua segunda novela, se intensifica de modo significativo.
Uma brisa forte vinda do sul e que há muitos anos fora batizada de "Minuano" compunha uma atmosfera que, involuntariamente, iria se entranhar na composição da minha personalidade, contribuindo tanto quanto o afeto e o companheirismo de papai para o que sou agora.
(A casa da esquina)

Na narrativa, ambientada em Porto Alegre e de tons autobiográficos, são despertadas pelo narrador-protagonista memórias, ora claras, ora obscuras, de sua passagem da infância à adolescência. Passagem esta que, mesmo oscilando entre sonhos e fantasias, contém a realidade de um menino que descobre, concomitantemente, a dor da perda do pai e as sensações do primeiro amor. Também está expressa a paixão do protagonista pela música, que desde cedo lhe provocou encantamento: Às vezes eu conduzia a música, às vezes a música me conduzia. Andávamos juntos num namoro ingênuo até sermos interrompidos por alguma coisa, um ruído, uma pessoa ou um outro pensamento. Desse modo, temos, nas lembranças de um menino, um passado formado por imagens, sons e aromas, que se fundem a expectativas e vicissitudes geradas em torno e além da rotina casa-escola. O tempo – subjetivo, carregado de emoções – é também linguagem que nos convida, enquanto leitores-ouvintes, a acompanhar a história do narrador que, em tom de prosa, tece suas recordações como se estivesse em uma roda de chimarrão, a fazer suas confissões a velhos conhecidos. Através da simplicidade narrativa, somos levados a desfiar a teia da memória, adentrando nos territórios obscuros do tempo, do amor e da morte.
Nos olhos de papai encontrei algo que busco até hoje. Hipnotizado por ele, fui tomado em seus braços no maior abraço de que tenho lembrança. O corpo descorado emanou em mim o calor acolhedor daquele último gesto sem palavras. Um calor de pai que independe de qualquer estado para que cumpra sua função de explicar tudo na acolhida de um gesto.
(A casa da esquina)
Já em A favor do vento (2002), os flashes da memória de um homem anônimo refletem uma busca desenfreada pelo que restou de si através de divagações, lembranças, sonhos, desejos e angústias. Agora o cenário não é mais composto de esquinas e ruas da capital nem da casa materna, mas do árido inverno litorâneo do sul, a tornar tudo mais íntimo, secreto, solitário. Um homem em busca de algo adormecido ou mesmo perdido interiormente espelha-se nas cinzentas praias gaúchas, como se o mistério que as circunda fosse, de algum modo, o dele. Ainda temos um movimento de passagem, como ocorre no primeiro livro do autor; contudo, agora aquele se faz da adolescência para a maturidade, em que tudo fica mais complexo, inacessível. Outra diferença, se quisermos persistir na comparação, é que a narrativa de A favor do vento trama presente e passado: o presente está nas divagações do narrador adulto, recluso em uma casa de praia sombria, a viver o vazio dentro de si; o passado, nas recordações de seu amor por Helena, mas também nos relatos do narrador adolescente sobre sua incursão no mundo do rock, com tudo de bom e ruim que esse universo é capaz de oferecer a quem se arrisca a desbravá-lo. Temos, então, camadas narrativas que, à medida que o texto vai chegando ao final, se unem em uma única história. É por essa rede de momentos entrelaçados que chegamos ao grande protagonista: o tempo, que tudo dissolve e tudo transforma.
À medida que o tempo passa, vamos nos adaptando a novas realidades e percebendo o real valor de tudo que um dia nos foi dito. Até as coisas mais absurdas apresentam algum significado com o passar do tempo. O tempo dá condições para que possamos compreender, nos dá distância para que possamos enxergar o que de perto é, quase sempre, invisível.
(A favor do vento)
Os livros de Leindecker dirigem-se principalmente aos jovens leitores pelo fato de esboçarem descobertas do corpo e da vida, primeiras decepções, desejos e responsabilidades; todavia, também podem ser lidos como um caminho para repensar sobre a vida e retornar a tempos perdidos na memória, o que os torna uma interessante leitura ao público adulto. São, mais do que literatura, uma proposta de reflexão e mudança: Basta que a gente mude um pouco dentro de si, para que tudo a nossa volta se transforme. Enfim, a produção deste músico-autor está, portanto, imersa em uma realidade subjetiva, feita por sonhos, medos e lutas cotidianas que se fundem ao ato criador. Através de acordes e palavras, Duca Leindecker faz a arte alimentar a vida e a vida alimentar a arte – mais do que isso, faz ambas alçarem voo rumo a um amanhã mais colorido.
Voamos como as gaivotas da praia num voo cego rumo à nossa identidade para descobrirmos que não existe nada além de uma construção subjetiva do que somos.
(A favor do vento)
Confira a seguir a letra de "O amanhã colorido", dedicada ao filho Guilherme:
O Amanhã Colorido
Olha a luz que brilha de manhã
Saiba quanto tempo estive aqui
Esperando pra te ver sorrir
Pra poder seguir
Lembre que hoje vai ter pôr do Sol
Esqueça o que falei sobre sair
Corra muito além da escuridão
E corra, corra...
Não desista de quem desistiu
Do amor que move tudo aqui
Jogue bola, cante uma canção
Aperte a minha mão
Quebre o pé, descubra um ideal
Saiba que é preciso amar você
Não esqueça que estarei aqui
E corra, corra...
Azul, vermelho
Pelo espelho
A vida vai passar
E o tempo está no pensamento
Olha a luz que brilha de manhã
Saiba quanto tempo estive aqui
Esperando pra te ver sorrir
Pra poder seguir
Lembre que hoje vai ter pôr do Sol
Esqueça o que falei sobre sair
Corra muito além da escuridão
E corra, corra...
Azul, vermelho
Pelo espelho
A vida vai passar
E o tempo está no pensamento |