segunda-feira, 6 de setembro de 2010
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Arte é...vidência

Revisitando o imaginário de

Charles Perrault

Por Cimara Valim de Melo

É na infância que se desenvolve ou se atrofia a capacidade de deslumbrar-se que tanto enriquece a vida de qualquer pessoa.

Fernanda Lopes de Almeida

Histórias para contar e recontar. Para reunir a família ao redor de mundos maravilhosos, tão diferentes e tão semelhantes do nosso. Para resgatar dos confins da literatura a tradição, elo - tão frágil, atualmente - que entrelaça o indivíduo à sua identidade e o faz compreender-se como processo. Para trazer à tona o ser humano que se perdeu com os excessos da dinâmica modernidade. São essas mágicas histórias que apaixonam o leitor atento e sensível, fazendo-o divagar por florestas, castelos, bosques, enfim, por espaços medievais suspensos temporalmente. São elas que enternecem, atemorizam, surpreendem crianças e adultos em busca de valores a serem perseguidos, valores estes essenciais à harmonia social. É por isso que não devemos nunca deixar de ler e contar histórias. Essa atitude lúdica e reflexiva aproxima-nos de nossas raízes e faz-nos ter novo fôlego para as batalhas travadas no cotidiano. É isto: entramos na literatura sedentos; saímos dela transmutados.

Face à importância vital da literatura a pessoas de qualquer tempo ou lugar, é nosso papel valorizar o trabalho daqueles que dedicaram suas vidas a trazê-las até os leitores. E o pioneiro desses desbravadores do imaginário folclórico, surgidos a partir do século XVII, foi Charles Perrault, que registrou histórias ricas em fantasias a que chamamos, hoje, de literatura infantil - termo contraditório pela forma como limita a relação leitor-obra-autor. Perrault, gênio que viveu na França entre os anos de 1628 e 1703, foi o primeiro a desfazer-se do preconceito existente em relação ao universo infantil. Nessa época, os pequenos eram vistos como adultos em miniatura, o que acarretava sérias limitações na educação de crianças e jovens, sem um tratamento especial para o desenvolvimento de suas potencialidades. Além disso, os desvãos do absolutismo monárquico - personificado na França através do monarca Luís XIV e seu majestoso palácio de Versalhes - e a formação das correntes racionalistas e liberais - que se expandiram, no século XVIII, com os ideais iluministas e culminaram com a Revolução Francesa em 1789 - provocavam conflitos nas formas de perceber o mundo e o ser humano. As histórias escritas por Perrault abriram um leque de possibilidades aos leitores de todas as idades, constituindo um legado narrativo e poético riquíssimo à cultura universal.

Sua obra máxima é Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités: contes de ma mère d’Oye (1697), traduzida como Histórias ou contos do tempo passado com moralidades: contos da Mamãe Gansa. Nela estão compiladas histórias coletadas do imaginário popular francês, cujas origens provêm dos espaços campesinos, fato que justifica o desconhecimento delas pela nobreza da época e a despreocupação delas com as "pregações de moral". Após o desenrolar de cada narrativa, havia, no livro, poemas que encerravam os textos, conferido-lhes um toque poético. Essa célebre obra foi para o autor, mais do que um trabalho de pesquisa e criação: foi um retorno à infância, às histórias que ouvira quando pequeno, um retorno ao menino esquecido de outrora, mas re-encontrado à beira de seus setenta anos. Antes de sua obra-prima, Perrault, havia escrito textos ensaísticos e poemas, muitos dedicados ao Rei Luís XIV, de quem chegou a ser assessor e em cuja corte participou de atividades artísticas diversas, a exemplo dos salões literários. Filho de descendentes da alta burguesia, tornou-se advogado ainda jovem, e, na maturidade, foi eleito membro da Academia Francesa de Letras, onde expunha suas idéias renovadoras com afinco.

Considerado o pai da literatura infantil devido à exploração do universo que circunda a fantasia e a realidade, Perrault desempenhou importante papel à literatura, e sua influência estende-se à atualidade. Primeiramente, porque desbravou as raízes da cultura européia, transcrevendo histórias folclóricas destituídas de qualquer moralismo religioso, nas quais observamos a luta ancestral entre o bem e o mal, entre o que nos fascina e nos assombra. Em segundo lugar, porque esses textos ultrapassaram fronteiras e estão circunscritos em nosso legado cultural, sendo, até hoje, lidas, estudadas, absorvidas e transformadas por mentes curiosas. Há quem lance aos contos de Perrault, ainda hoje, uma visão julgadora preconceituosa, pelo fato de que eles, na maioria, não contemplam finais do tipo "e foram felizes para sempre". Essa atitude limitada vai ao encontro do que, conforme Bruno Bettelheim escreve em A psicanálise dos contos de fadas, já ocorreu em outras épocas: Os que baniram os contos de fadas tradicionais e folclóricos decidiram que, havendo monstros numa história narrada à criança, deveriam ser todos amigáveis - mas se esqueceram do monstro que a criança conhece melhor e com o qual se preocupa mais: o monstro que ela sente ou teme ser, e que, algumas vezes, a persegue.

Os contos de fadas de Perrault, exatamente pelo modo como exploram a maldade e as virtudes humanas - pelo tom irônico, por vezes humorado, e essencialmente crítico - oferecem ao leitor a oportunidade de refletir-se e refletir seu mundo através da literatura. Conforme afirma o mestre brasileiro da crítica literária Antonio Candido, no ensaio "O direito à literatura", vivemos em uma época profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização. Por isso, a literatura, expressão universal de todos os homens em todos os tempos, torna-se elemento indispensável de humanização, já que confirma o homem e sua humanidade. A literatura é responsável pela transfiguração do real aos nossos olhos, pelo desdobramento da vida a partir do que nela vislumbramos de nós mesmos. Nesse sentido, assumem poder de restauração contos que, com Perrault, nunca mais saíram de na memória coletiva do povo, tais como "A Bela Adormecida", "Barba Azul", "A Gata Borralheira", "O Pequeno Polegar", "Chapeuzinho Vermelho", entre inúmeras outras publicadas no referido livro. Conforme Fernanda Lopes de Almeida, tradutora de parte delas para a Língua Portuguesa e autora do belo livro Contos de Perrault, da Editora Ática, a importância desse autor reside no fato de ele transformar essas histórias em boa literatura. Ao banhar os "contos da velha" no ouro de sua poesia, e recriá-los, conseguiu com primor fundir a tradição popular com a cultura erudita. Dessa forma, trouxe ao mundo das letras verdadeiros paradigmas da relação indissociável entre os mundos infantil e adulto, mesclando temas como família, natureza, magia e morte.

A literatura é um espelho pelo qual olhamos o que há de fantástico e precário em nós mesmos. É uma bússola, com a qual temos menos chances de ficarmos perdidos no turbilhão da vida contemporânea. É uma possibilidade laica de salvação interior, pois nos coloca, através da imaginação, face a face com aquele que já fomos e com aquele que, quem sabe, seremos. Os textos de Charles Perrault, enquanto literatura, têm a capacidade de trazer a nós uma nova visão de mundo, pois são símbolos de acontecimentos internos e externos aos seres e, mais que isso, de sua busca incessante pelo humano intrínseco à natureza e perpetuado através do tempo.

Eis a seguir uma das histórias coletadas por Charles Perrault:

As fadas

Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas. A mais velha se parecia tanto com ela que, quem a via, pensava estar vendo a mãe.

– Como são desagradáveis e orgulhosas! - costumavam comentar os conhecidos. Ninguém aguentava viver perto delas.

A caçula era o verdadeiro retrato do pai, pela doçura e pelo bom caráter. E, além disso, muito bonita.

Como costumamos amar quem se parece conosco, a mãe era louca pela filha mais velha e tinha uma incrível antipatia pela caçula. A moça comia na cozinha e trabalhava sem descanso.

Entre outras coisas, essa menina era forçada a ir a uma fonte distante, duas vezes por dia. Andava quase meia légua para trazer na volta uma grande bilha, cheia d’água.

Um dia, em que estava lá, aproximou-se dela uma pobre mulher, que lhe pediu:

– Quer dar-me de beber, minha menina?

–Pois não, minha boa tia.

E a bela moça, imediatamente, lavou a bilha e depois tirou a água com todo o cuidado. Em seguida, ofereceu-a à mulher, segurando sempre a bilha, a fim de que ela pudesse beber mais facilmente.

Tendo bebido, a mulher disse:

–Tu és tão boa, que não resisto ao desejo de te fazer um dom.

Tratava-se de uma Fada, que tinha tomado a forma de camponesa pobre, para ver até que ponto iria a bondade daquela jovem.

–Eu te faço o dom de que, a cada palavra que disseres, saia de tua boca uma flor ou uma pedra preciosa – disse ela.

E afastou-se.

Assim que a bela menina chegou à sua casa, a mãe a repreendeu por voltar tão tarde.

– Eu vos peço perdão, por ter demorado tanto, minha mãe – disse a pobre moça.

E, mal pronunciou essas palavras, saíram-lhe da boca duas rosas, duas pérolas e dois grandes diamantes.

– Que vejo? Creio que saem de tua boca pérolas e diamantes! Como acontece isso, minha filha? – perguntou a mãe, cheia de espanto. (Foi a primeira vez que a chamou de filha.)

A menina contou-lhe, ingenuamente, tudo o que lhe havia acontecido, não sem lançar pela boca uma infinidade de diamantes.
– É preciso que eu envie logo a minha filha a esse lugar – disse a mãe. – Vê, Francisca, vê o que sai da boca da tua irmã, quando ela fala. Não gostarias de ter o mesmo dom?

– Que bem me importa – respondeu a filha mais velha, com insolência.

– Tu só terás que ir à fonte e, quando uma pobre mulher te pedir de beber, tu a servirás com toda a gentileza.

– Tem graça – respondeu a mal-educada. – Eu ir à fonte!

– Eu quero que tu vás e já – ordenou a mãe.

A moça foi, mas resmungando. Levou o mais bonito jarro de prata que havia em casa. Nem bem tinha chegado, viu sair do bosque uma dama magnificamente vestida, que veio pedir-lhe de beber. Era a mesma Fada, que aparecera à sua irmã.

Desta vez havia tomado a aparência e as roupagens de uma Princesa, para ver até que ponto iriam os maus modos daquela jovem.

– Acha que vim aqui para lhe matar a sede? – respondeu a malcriada. – Imagine se eu ia trazer um jarro de prata especialmente para dar de beber à madame! Se quer beber, beba por si mesma.

– Você não é uma pessoa direita – disse a Fada, sem se encolerizar. – Muito bem, visto que gosta tanto de dizer coisas desagradáveis, eu lhe dou por dom que, a cada palavra que diga, saia de sua boca uma serpente ou um sapo.

A moça voltou para casa e, assim que a mãe a avistou, já lhe gritou de longe:

– Então, minha filha?

– Então, minha mãe? – respondeu a filha, expelindo dois sapos e duas víboras.

– Oh, céus! – exclamou a mãe. – Que vejo? Tudo isso foi por causa da tua irmã. Ela me pagará.

E correu para bater na jovem.

A pobre menina fugiu e foi esconder-se na floresta vizinha. O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a ali. Vendo-a tão bela e tão sozinha, perguntou-lhe o que fazia naquele lugar e por que chorava.

– Ai de mim, senhor, foi minha mãe que me expulsou de casa.

O príncipe viu sair da boca da moça cinco ou seis pérolas e outros tantos diamantes. Pediu-lhe para dizer como chegara a ter esse talento, e ela contou toda a sua aventura.

Ele enamorou dela e considerou que um tal dom valia mais do que qualquer dote que outra noiva pudesse trazer. Levou-a ao palácio de seu pai, onde a desposou.

Quanto à irmã, ela se fez detestar a tal ponto que a própria mãe não a quis mais perto de si.

A infeliz, depois de ter perambulado sem encontrar ninguém que a quisesse receber, foi morrer num recanto do bosque.

 

 
 
 
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