É incrível como nossa memória, contrariando a lógica do corpo humano, vai ficando mais clara com as lembranças à medida que o tempo voa.
Quanto mais velhos ficamos, mais vivas as doces recordações da nossa infância e adolescência.
Quanto mais nossos membros e órgãos vão se declinando, nossa massa cefálica reservada à memória vai, na contramão cronológica, funcionando melhor.
Parafraseando o que disse certa vez um certo professor brasileiro, eu tracei mais mulheres do que merecia, mas bem menos do que gostaria.
Certamente, por isso, ainda hoje, no inverno de minha vida, não posso ver um par de tetas ou, principalmente, uma bela bunda, sem ficar, no mínimo, nervoso.
Para piorar a situação, esses estilistas afetados em conjunto com a evolução da indústria têxtil, conseguem, com suas roupas modernas, embaladas com um aperto inferior à pressão atmosférica e desnudando sensualmente cada vez mais nossas mulheres, me deixar, se é que é possível, ainda, mais perturbado.
Quando jovem, e lá se vão cinqüenta e tantos anos, vi uma charge numa daquelas revistas masculinas, que chamo carinhosamente de “Catálogo de Bocetas”, onde dois homens, por volta de seus 50 anos, à beira de uma suntuosa piscina, envoltos de meia dúzia de mulheres peitudas, conversam sobre o assunto campeão de audiência. Eis a legenda: - Sabes que, quando jovem, eu me perguntava quem eram os que comiam esta mulherada toda. Hoje eu sei, somos nós!
Pois eu não precisei chegar aos 50 anos com dinheiro no bolso para comer elas.
Lembro agora, com clareza, que certa feita, lá pelos meus saudosos 19 anos – pouco antes de me casar -, decidi que, durante um mês, iria comer uma mulher diferente por dia, ou por noite, ou por dia e noite – bem melhor.
Estava indo muito bem, até que no sexto dia de sexo variegado, não resisti e quebrei meu próprio trato, pegando a mesma gostosa do dia anterior.
Mas, se vocês, homens e, até mesmo, mulheres, a vissem, dar-me-iam (mesóclise, que chique!) razão.
Depois desta tentativa mensal diferenciada, que não posso de forma nenhuma afirmar como malsucedida, nunca mais tornei a cogitar tal façanha.
Ainda vou, muito em breve, começar a contar quantas mulheres diferentes comi.
Com certeza, de longe, passei das cinquenta – não incluindo aí as putas, ou melhor, as mulheres que não precisei colocar a mão no bolso em troca do prazer.
Aliás, foi somente após os meus 40 anos que comecei a comprar os carinhos femininos, não tanto por necessidade, mas por puro comodismo e influência da mídia. Mesmo assim, o dinheiro por mim investido em montadas, com o perdão do chulo trocadilho, foi de pouca monta.
Mas tenho que reconhecer que, depois de uma certa idade, o melhor mesmo é ir a num pesque-pague e comer umas piranhas do que se aventurar rio acima, às vezes, sob fortes tempestades, e não ser bemsucedido, arriscando ainda a levar um raio bem no meio das guampas.