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Quarta-feira, 09 Set 2009
Advertência
Um fragmento, do que provavelmente seria um manuscrito, foi encontrado, em 1973, no Barro Vermelho, em Gravataí, por ocasião de uma escavação, altamente sigilosa, da Petrobrás em busca da substância oleosa e inflamável e principal fonte de energia da atualidade.
Esta raridade só obteve guarida graças a um petrolista romântico e dado à curiosidade que, num lampejo vocacional arqueológico antediluviano, preservou, de sorrate, entre sua cueca, um pequeno calhamaço de pasta de matéria fibrosa de origem vegetal, milagrosamente em ruinoso estado de conservação.
O refinado refinador referido teve o seu nome mantido até hoje em absoluto segredo, sabendo-se, tão-somente, de seu provável apelido: Bulula.
A partir daí, as especulações sobre quem, de fato, seria esta pessoa, são muitas. Aqui, na Aldeia, há quem diga tratar-se de um estimado morador e figuraça local que, junto com o saudoso Niquinho, era assíduo frequentador do Bar da Rodoviária e fervente tomador de cafezinho, precedido de um copo d’água.
Bulula, já falecido, era muito querido.
Ele não caminhava, oscilava para os dois lados e, num passo de mágica, deslocava-se magistralmente à frente.
Não falava, entaramelava.
Não cantava, vaiava.
Não assobiava, zunia.
Nunca sorria amarelo: só sorria azul.
Era gremista fanático. Gremistaço!
Mas, voltemos ao supracitado pedaço de papel ou coisa que o valha.
Expresso em letras que sugeriam um distante dialeto – quase um patoá - trasmontano (província portuguesa de Trás-os-Montes), daí porque, provavelmente, foi levado ao país de nossos “descobridores”, localizado no sudoeste da Europa.
Aliás, é bom registrar, em bom Português, que foi um nobre gravataiense da mais pura gema que, por conta e riscos próprios, fez chegar; pessoalmente, o manuscrito em questão, aos laboratórios do outro lado do Oceano Atlântico.
Gone – e aqui, por questões de segurança, preservo seu nome civil - diz que fez isso em homenagem ao seu avô Aristóteles Afonso – idem e ibidem -, português nativo e que hoje empresta seu nome a uma rua em nossa Aldeia dos Anjos.
Lá, segundo ele - registro isso somente a título de curiosidade - no curto espaço que permaneceu, fundou uma banda musical formada com mais duas lindas portuguesas e cujo sugestivo nome foi “Gone e suas gônadas”.
Também, aprendeu, como poucos, aquele passo de dança, do Michael Jackson, que parece estar andando pra frente, mas vai pra trás.
Quanto ao documento, em evidência, apuradíssimas análises, apontam, com certeza, tratar-se de sangue humano a tinta existente, mais precisamente do tipo AB com forte indícios do Cólera e, através de rigorosos testes com o isótopo radioativo natural do elemento carbono de massa atômica 14, foi possível precisar que o mesmo possui datação radiométrica de 1877.
Isto posto, chegam de preâmbulos e vamos à tradução literal, se é que possível, do que sobrou e foi um dia um conjunto de escritas demóticas.
My name is Feromônio XII
“Minha amada:
gostaria de ter escrito
estas mal traçadas linhas
com tinta invisível,
pois, secretas.
Resolvi escrever
com o líquido de minha própria vida,
pois, íntimas.
Meu amor não correspondido:
não me perguntes
se minhas lágrimas
são de alegria ou de tristeza.
Afinal,
você não dá para mim,
dá pra ele.





