Pequeno Paraíso
Há mais de 30 anos, a flor que consegue nascer e conviver com os grandes espinhos dos cactus chamou a atenção da aposentada LÚCIA CORRÊA MONTEIRO - daquelas pessoas de carisma natural e de quem não se quer sair de perto. Desde então, começou a colecionar variadas espécies e hoje, são elas que ganham destaque especial no lindo jardim que cultiva em seu cantinho, o qual considera seu pequeno paraíso. Além das plantas, outro amor toma conta de seu coração e compartilha o espaço com os cactus: as antiguidades. Nos fundos de casa, mantém um pequeno museu, aonde coleciona de tudo: moedas, documentos históricos, rádios, discos de vinil, miniaturas, entre muitas outras coisas.
“Desde que me conheço por gente, gosto de planta. Quando ia levar almoço para meu pai Adelino - mais conhecido como Diloca (in memoriam) -, na roça, ia arrancando mudas de matos no caminho para replantar em casa. Mas nada vingava, pois ainda não sabia cuidar, só achava bonito”, rememora. No entanto, hoje em dia, é ela quem cuida, como ninguém, de cada um dos mais de 100 tipos que coleciona no jardim. O primeiro que plantou em casa veio de um vizinho do pai. “Adorava aquele cactus – planta que a maioria rejeita. Quando me mudei de Santo Antônio da Patrulha para cá, trouxe uma muda. Esse, que é o cactus Figo da Índia ainda está aqui e tem mais de trinta anos. Cada linda flor que brota dessas espécies tem seu tempo para florescer, assim como ocorre na nossa vida.”
A curiosidade sobre o exemplar aumentou e fez com que fosse pesquisar o assunto. A paixão se firmou e ela tornou-se bastante conhecedora dessa classe, sabendo, inclusive, o nome científico de muitas. O mesmo acontece com os mais de 40 tipos de orquídeas e mais de 30 variedades de bromélias que também cuida com o mesmo carinho. “No silêncio vegetal delas, as plantas falam com a gente. É incrível como correspondem ao afeto e me passam paz, tranquilidade, me distraem e me enternecem. É difícil uma se ir na minha mão, mas quando fiquei impossibilitada de caminhar em virtude de uma cirurgia, perdi algumas.”
Esse mesmo zelo que aplica na área verde do terreno, também direciona para organizar, diariamente, o museu em que preserva a história através de objetos antigos e coleções dos mais variados estilos e formatos. Não importa como chegam, se é por doação, aquisição ou garimpagem em briques e afins. A verdade é que onde estiver algum artefato que remonte a trajetória de alguém ou de uma época, lá está a aposentada que descansou do trabalho, mas não dos prazeres que a vida lhe dá. O marido José (65) e os filhos Fabiane (29) e Fabrício (33) já sabem que têm que compartilhá-la com suas outras paixões. “Já cheguei a passar 30 horas direto, sem comer, organizando prateleiras e pastas no museu. Hoje não faço mais isso”, conta ela, que adora ficar distraída entre moedas e notas, embalagens de cigarro de muitas décadas atrás, documentos originais, alguns assinados por Getúlio Vargas; discos de vinis de artistas diferentes e de outros países, como a Áustria; baleiros de vidro típicos dos anos 70; balanças de precisão antiqüíssimas; diversos modelos de rádios; máquinas fotográficas e TV’s antigas; miniaturas de mobílias; móveis com vitrola embutida; máquinas registradoras e entre muitas outras peculiaridades, até mesmo uma adaga da fase da Guerra dos Farrapos encontrada enterrada.
Além disso, quem entra no local, se impressiona com a organização e limpeza. Lá, tudo é embalado, plastificado, etiquetado com nome e ano, distribuídos em armários, prateleiras e vitrines próprias para cada objeto. A colecionadora sabe a história de cada coleção e para quem pensa que já parou por aí, avisa: “ainda vou ampliar o espaço para abrigar mais peças e coleções. Estou sempre em contato com museus e instituições que se interessam por antiguidades e que valorizam meu trabalho de preservação. Mais tarde, gostaria de deixar essa preciosidade para alguém que cuide como eu. Que bom se todos pudessem contar nossa história”, encerra a dona de uma alegria constante, que aponta como o bem mais precioso de seu canto de recordações um surrado chapéu de feltro guardado em lugar de destaque especial. “Esse era do meu pai”, suspira, emocionada, com a relíquia afetiva entre as mãos.