ARTIGOS

Natureza

Um grande complexo: Banhado dos Pachecos e do Chicolomã

O Brasil possui uma biodiversidade imensa de ecossistemas aquáticos e terrestres que formam verdadeiros complexos ecológicos. Dando continuidade ao projeto Natureza, a Revista Evidência segue falando sobre os locais que dão origem ao Rio Gravataí. Nesta edição, conheça um pouco mais sobre o BANHADO DOS PACHECOS e DO CHICOLOMÃ.

Eles não se localizam em Gravataí, mas são de extrema importância para a vida dos moradores da Aldeia. É no Banhado dos Pachecos, em Viamão, e no do Chicolomã, em Santo Antônio da Patrulha, que se encontra a nascente do Rio Gravataí. Junto com o Banhado Grande, eles formam o conjunto da Área de Proteção Ambiental (APA).

Formação comum dos pampas gaúchos, os banhados cumprem um papel de área de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres, garantindo a sobrevivência de ambos. Importantes reservatórios e exportadores de matéria orgânica, nutrientes e biomassa, eles prestam diversos serviços ecológicos fundamentais para o bem-estar das comunidades humanas que vivem em suas proximidades, como a contenção de inundações, a recarga dos aquíferos e a purificação das águas.

Porém o fato de serem terrenos alagadiços e visualmente não tão bonitos fez com que eles fossem considerados inúteis por muitas pessoas, sendo invadidos pela expansão agrícola ou utilizados como depósito de lixo. Outra ameaça são as erosões, eventos naturais, mas que têm sido acelerados pela intervenção humana. Como em qualquer ambiente natural, em médio e longo prazo, essas ações podem ocasionar a destruição e o desaparecimento deles, uma vez que a formação dos mesmos é um processo lento.

Como forma de proteger as regiões úmidas, o poder público cria as unidades de conservação, que são fundamentais para a redução dos efeitos da degradação desses ecossistemas. Uma delas é o Refúgio de Vida Silvestre, em Viamão.

 

Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos

Localizado próximo à rodovia RS-040, no distrito de Águas Claras, em Viamão, o refúgio foi criado a partir de uma extensão de terras cedidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) em 24 de abril de 2002. A região representa uma das 23 unidades coordenadas pela Divisão de Unidades de Conservação do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas da Sema. É uma unidade de proteção integral, o que significa permitir apenas o uso indireto do ambiente.

De acordo com o Biólogo André Osorio Rosa, Técnico Ambiental da Sema e Gestor do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, o local resguarda as condições ideais de amostras dos ambientes naturais do complexo da APA, servindo de zona núcleo para comunidades da fauna e da flora. “Cabe também destacar que no Refúgio encontram-se importantes nascentes formadoras do Rio Gravataí, a exemplo da Nascente Águas Claras.”

O local é representado por um mosaico de formações vegetais, com presença de matas de restinga, matas paludosas, formações campestres e outras particularidades vegetais. Na questão da fauna, a principal característica éservir de abrigo para aves migratórias e a alta biodiversidade. Entre as espécies presentes, constatam-se algumas ameaçadas de extinção, como o Cervo-do-Pantanal. Merecem destaque também o tuco-tuco-lami – roedor restrito a este local –, jacaré-de-papo-amarelo, capivara, tachã, marrecas, curiango-do-banhado, noivinha-de-rabo-preto, maçarico-real, narcejão e a corruíra-do-campo.

 “Há cerca de dois anos, foi iniciado um trabalho de monitoramento da fauna de mamíferos de médio e grande porte dentro do Refúgio. Com base nesta pesquisa, até o momento, já foram registrados 19 mamíferos desse grupo, incluindo sete espécies ameaçadas de extinção”, destaca o biólogo. O monitoramento vem sendo realizado com equipamentos conhecidos como armadilhas fotográficas, que consistem de câmeras ligadas a sensores infravermelhos e que captam a passagem de qualquer animal à sua frente. Com o uso sistemático desses equipamentos, já foram obtidas várias imagens e filmagens de cervo-do-pantanal no ambiente do Refúgio. Dados como o horário de atividade, época do nascimento de filhotes, número de indivíduos e inclusive alguns aspectos do comportamento podem ser gerados a partir dessa metodologia.

No refúgio, não é permitida a visitação: apenas a pesquisa científica e ações de educação ambiental. Tudo para manter a biodiversidade protegida da ação do homem.

Projeto de monitoramento do Banhado do Chicolomã

Dos 4.281,39 hectares do Banhado do Chicolomã, aproximadamente 50% do território é definido como zona núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Através do Departamento de Meio Ambiente, a Prefeitura Municipal de Santo Antônio da Patrulha vem monitorando a região. A abrangência do projeto está restrita aos limites do município e das partes que integram a APA, priorizando os ecossistemas situados dentro da unidade de paisagem denominada planície lagunar.

Segundo a Bióloga Miriam Borba, que atua junto ao Banhado, “o monitoramento tem um ano de execução e deverá se estender por mais vinte e quatro meses. Com o objetivo de obter dados quali e quantitativos dos mamíferos de médio e grande porte nas diferentes sub-bacias que fazem parte da área de abrangência.” Para isso, estão sendo utilizados os seguintes métodos: transectos lineares, armadilhas fotográficas e transectos automotivos através das rodovias que cruzam o local – BR-290, a Free-Way, e RS-030 –, visando também ao controle da fauna atropelada dentro dos limites do projeto. “Até o presente momento foram registradas 16 espécies de mamíferos de médio e grande porte, dentre elas as de interesse conservacionista ou ameaçadas de extinção: lontra, bugio-ruivo, gato do mato, tatu do rabo mole e tatu mulita. Paralelamente, foi verificada a riqueza de aves através de amostragens qualitativas onde foi possível identificar um total de 153 espécies de aves”, destaca Miriam.

A flora do Chicolomã também é bastante diversa sendo representada por mirtáceas como o guamirim, a pitangueira e o pessegueiro do mato. Em alguns locais observa-se a presença de cactáceas denunciando o caráter arenoso do solo. Nas matas mais desenvolvidas estão espécies como a aroeira, a capororoca, a caliandra, o cocão e o branquilho. As plantas epífitas – que vivem sobre outras plantas – também são abundantes ocorrendo os cravos do mato, diversas orquídeas, bromélias e bigôneas. Na mata paludosa ou alagada, a espécie mais eminente é a figueira branca, acompanhada pelo gerivá. Nas áreas mais alteradas e com solo úmido destacam-se a pitangueira do mato, o tarumã, o maricá e a corticeira do banhado.

Uma espécie emblemática

O cervo-do-pantanal é um dos maiores mamíferos terrestres da América do Sul. Antigamente, ocupava diversas regiões úmidas do Estado, principalmente as regiões da Campanha, Depressão Central e Litoral. Atualmente, a única população que restou encontra-se no Banhado dos Pachecos, especialmente dentro do Refúgio. “O significativo número de cervos recentemente observado é um indicativo importante da maior concentração de indivíduos neste local. A espécie está criticamente ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul, dependendo exclusivamente dos banhados ainda bem preservados para sua sobrevivência”, salienta André. Por isso, a continuidade da espécie mais emblemática da região depende, hoje, da proteção integral do Refúgio de Vida Silvestre.

Arroz agroecológico

Criado em 1998, o Assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra “Filhos de Sepé” é considerado o maior assentamento do MST no Estado, com uma área total de 9,4 mil hectares. O local tem condições ambientais especiais, pois está inserido dentro da APA Banhado Grande e faz limite com o Refúgio de Vida Silvestre. Se no início a convivência entre os assentados e a unidade de conservação foi tumultuada, hoje a situação é bem diferente. Desde 2002, eles participam da produção do arroz orgânico. “A maioria dos moradores reconhece a importância de preservação do Refúgio de Vida Silvestre. Fato é que a conscientização foi se firmando ao longo do tempo, estando hoje, de uma maneira geral, bastante aceitável, de modo a reconhecer que o assentamento, com sua produção exclusivamente orgânica, representa mais uma oportunidade do que um problema”, ressalta o gestor.

Fontes:

Secretaria Estadual de Meio Ambiente

Prefeitura Municipal de Santo Antônio da Patrulha

Fundação de Zoobotânica do RS

comentários (0) faça seu comentário

- nenhum comentário foi encontrado para esta notícia.