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Arte é...

PELOS DESCAMINHOS LITERÁRIOS DELYA LUFT

Cimara Valim de Melo

Não se pode esquecer também que escrevo propondo uma releitura dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade e da mentira nos tipos de relacionamentos mais estranhos ou mais comuns. Não é apenas o imponderável e o misterioso que me interessa, mas o grande desencontro humano.

Lya Luft

A literatura oferece ao ser humano, enquanto leitor, a possibilidade de tecer desafios constantes a si mesmo por meio do conhecimento de outras realidades – reais e inventadas – que passam a fazer parte da(s) realidade(s) vivida(s) por aquele que lê. Como ocorre em um jogo de espelhos, é possível encontrar, pelas páginas de um texto literário, faces, tempos e espaços perdidos, os quais são, ao mesmo tempo,“eu” e “outro” em constante mutação e interação. Ao adentrarmos o universo literário, experienciamos uma verdadeira fusão de vidas, ora experimentando de suas luzes, ora de suas sombras, em nossa própria vida.

Entre sombras de entes fantásticos ou mitológicos, imagens de realidades difusas ou grotescas, luzes de relacionamentos complexos ou singelos, nasce a literatura luftiana. Feita pela soma de arranjos narrativos e poéticos, seus textos, que abrangem dezenas de livros publicados, assumem múltiplas formas do literário– romances, crônicas, ensaios e poemas.

Entre mim e tudo, um fino espelho.

Moro nas duas faces: assim

não pertenço a nenhuma.

Não me pedem cor de olhos

nem datas nem perfil:

o que importa são as perguntas.

Lya Luft,O tigre na sombra

Descendente de imigrantes alemães, Lya Luft nasceu em Santa Cruz do Sul, em 1938. Suas raízes germânicas uniram-se à cultura brasileira ao longo de sua vida, seja pela soma de culturas que predominaram dentro do território familiar, seja pela de espaços por ela trilhados. A valorização da leitura fez com que, desde cedo, desfrutasse do prazer inerente ao mundo ficcional. Como tradutora, desde 1960,verteu para aLíngua Portuguesa obras do inglês e do alemão de autores do cânone literário ocidental, a exemplo de Virginia Woolf, Thomas Mann, DorisLessing e Günter Grass. Formada em Letras Anglo-Germânicas e Mestre em Linguística Aplicada (PUCRS) e Literatura Brasileira (UFRGS), atuou como professora delinguística e literatura nas Faculdades Porto-Alegrenses nos anos de 1970.

A partir de 1980, com o incentivo de Pedro Paulo Sena Madureira, editor da Nova Fronteira na época, e de Celso Pedro Luft, Lya passou a dedicar-se com profundidade à literatura. O romance As parceiras(1980), sua obra de estreia, deu início a uma sucessão de narrativas longas centradas em conflitos interiores e dramas familiares representativos do mundo contemporâneo. Pertencem a esse grupo os romances A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), A sentinela (1994), O ponto cego (1999) e O tigre na sombra (2012).

Em O quarto fechado, Lya procura questionar os mistérios da vida e da morte, apresentando-as como as grandes protagonistas do romance. Por meio de fragmentos de memória, toma forma a tragédia que paira sobre a família de Renata, enquanto esta vela o filho Camilo. Personagens fragmentadas alimentam a narrativa com suas angústias e recordações íntimas, as quais representam mundo contemporâneo pelo seu avesso, levando o leitor à análise das sensações de vazio e impotência do ser humano frente à deterioração das relações sociais.

Renata mirava Camilo: por onde andaria agora? Morto, parecia-lhe um pouco menos misterioso. Talvez menos enigmático agora que a Esfinge engolira todos os enigmas, as águas dissolvendo tudo com a umidade.

Lya Luft,O quarto fechado

Com O ponto cego, novas perspectivas surgem na romanesca luftiana, embaladas por questões até então não exploradas profundamente pela autora, como a utilização do olhar infantil como ponto de vista da narrativa e da metalinguagem. Retomadonesse romance, a personagem “Anão”, presente no romance Exílio, assume novos matizes. Além disso, ocultas na individualidade do narrador, o “Renegado”, estão questões vinculadas à contemporaneidade, como o desajuste nas relações humanas, os conflitos identitários e as pequenas perversidades provenientes de ações cotidianas.

O tempo que rói e corrói precisa ser reinstaurado, quem conta histórias pode sobrepor muitas camadas de imaginário e real, pois sabe que os limites são tênues, e poderosa a liberdade com todos os seus perigos.

Lya Luft,O ponto cego

Em seu romance mais recente, O tigre na sombra, Luft mantém a exploração do universo interior, apresentando-nos os conflitos familiares sob a perspectiva de Doda – ou Dolores – personagem marcada pelo problema físico que a acompanha ao longo da vida. A “menina da perna curta” enfrenta, muito mais que a dificuldade de caminhar, a rejeição de uma sociedade que não perdoa aqueles que não se ajustam aos seus padrões, exclusão vivida no próprio seio familiar. Em meio ao constante jogo de espelhos e sombras, o leitor vai se apropriando da trama que forma a narrativa, cuja chave está na incidência do duplo, seja pelo reflexo de Dolores nos espelhos; pelos contrapontos com a irmã Dália; pela presença de Deco, amigo imaginário; pelo simbolismo que paira no tigre que espera; ou pela presença constante do mar, no qual a narradora se visualiza.

O mar vai e vem, e vem e vai, e no seu tumulto permanece, enquanto nós humanos lutamos, queremos descobrir, achamos que sabemos -e a um embate de água e espuma tudo se desmancha como se nem tivesse existido. Castelos de areia, bichos formados com conchas e ilusão. Como dizia a minha Vovinha, isso de realidade é bobagem: cada um inventa a sua, o avesso pode ser o certo, no espelho pode estar a vida, e tudo aqui fora [pode] ser um sonho.

Lua Luft, O tigre na sombra

Além de romances, Lya publicou diversos livros vinculados ao gênero ensaio. Um dos motivos de inspiração para esse estilo é a sua participação, desde 2004, como colunista da Revista Veja na seção Ponto de Vista. Ora próximos da crônica, ora mais distantes da estética literária, com uma escrita que passa por depoimentos e memórias, esses livros conquistaram o público de massa e popularizaram a autora dentro e fora do país. Entre tais publicações, estãoO rio do meio (1996); Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas e ganhos (2003),  Pensar é transgredir (2004), Em outras palavras (2006), Múltipla escolha (2010) e A riqueza do mundo (2011). A autora, que já recebeu diversos prêmios e distinções literárias,também possui incursões na poesia, no conto e na literatura infanto-juvenil.

Tudo realmente se multiplicou, porque estamos cada dia mais aflitos e mais cruéis. Mais frios também. Para nos protegermos da dor, do nosso deserto de emoções e valores, quem sabe?

Lya Luft, Pensar é transgredir

Lya Luft é uma escritora de muitos caminhos. Em cada uma das veredas trilhadas, encontramos o absurdo, o grotesco e o impossível, mas também o ordinário, o terno, o cotidiano. De rotas que se distanciam e entrecruzam, passando por diferentes gêneros e estilos, nascem seus textos, pelos quais é possível perceber que realidade e ficção são, na verdade, indissolúveis, feitas muito mais de silêncios e assombros do que de palavras e encantos. Eis alguns dos mistérios que circundam os descaminhos literários de Lya Luft.

A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas.
A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, uma vida paralela a isso que parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam. Fora dessa casa de vidro existe outra vida, que chamamos real. Com pão e manteiga, aroma de café, lençóis úmidos de sexo, filhos correndo, pais envelhecendo, contas a pagar, cargos a ocupar, nomes e marcas e tráfegos e sonhos e consumo, e sonhos de consumo.
 E dor.

Lya Luft, O tigre na sombra

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