FERNANDO PESSOA:
O POETA DO DESASSOSSEGO
Cimara Valim de Melo
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse “Conhece-te” propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho.
Fernando Pessoa
A literatura tem um quê de inquietação. É uma força artística provocadora, que arrebata o pensamento humano, descortina verdades e mentiras, desnuda o ser. Viver de máscaras e aparências não é viver literatura, embora muitos confundam o poder ficcional do fazer literário com a capacidade de esconder a verdade através da imaginação. Nada disso: a literatura, ao contrário, revela a verdade que subjaz à representação, revela a fantasia inerente a qualquer verdade. Do latim imágo, imagem é semelhança, representação, retrato, e dela vem a imaginação, ou imaginatìo, que significa, ao mesmo tempo, visão, ideia, pensamento, ilusão. A literatura manipula imagens através das palavras, cria a partir da combinação de ideias e subverte a realidade pela exploração da natureza simbólica e ilusória desta. É justamente por essa faculdade que a literatura indaga mais que apresenta, pois sua matéria artística gera um desconhecimento profundo do ser sobre si mesmo e sobre o mundo, graças à refração que cada imagem literária provoca no indivíduo. Ver e não ver, ser e não ser – eis as possibilidades que emanam dessa teia de palavras chamada arte literária.
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminada
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Fernando Pessoa, Poesia completa de Álvaro de Campos
A capacidade de a literatura gerar desassossego faz-se pelas mãos de verdadeiros mestres, cuja escrita emana dessa teia de palavras chamada arte literária. Nesse sentido, dentre os maiores nomes da literatura mundial está o poeta português Fernando Pessoa, que, segundo Elêusis Camocardi, buscou expressão por meio de símbolos, que surgem na sua obra não como artifícios literários ou estéticos, mas como captadores e transmissores de sua cosmovisão. Pessoa personificou a multiplicidade humana como nenhum outro escritor o fez na história da literatura, não apenas pela diversidade de seus textos, mas pela forma como cada um deles representou indivíduo e sociedade, auxiliados pela presença dos heterônimos, personalidades que abalaram as fronteiras entre realidade e ficção e produziram modos próprios de escrita.
Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente, sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo que assisto sou eu.
Fernando Pessoa, O livro do desassossego
Um marco na vida literária de Pessoa foi a publicação da revista Orpheu, que, mesmo com poucas edições, serviu como veículo excepcional de divulgação das ideias modernistas e de expressão do pensamento da época. Para além de sua proposta, Orpheu influenciou os movimentos artísticos que provocaram a renovação da literatura portuguesa no século XX, constituindo-se mola propulsora para a realização de uma verdadeira revolução literária, consolidada, nos anos seguintes, com Fernando Pessoa, José Régio, Miguel Torga, Alves Redol e Alexandre O’Neill, entre outros nomes que trilharam caminhos próprios, abertos para o velho e o novo pela literatura. A constituição de Orpheu, em 1915, deu-se com a participação de jovens artistas propostos a mudar o cenário artístico da época. Entre eles estão incluídos Pessoa, Almada-Negreiros, Sá-Carneiro, Luiz de Montalvôr e o brasileiro Ronald de Carvalho.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Fernando Pessoa, Poesia de Álvaro de Campos
O grande legado de Fernando Pessoa está no universo da heteronímia. Do menino nascido em Lisboa – que completou os estudos na África do Sul, onde fora morar com a mãe e o padrasto após o falecimento do pai, e que voltou em 1905 para Lisboa, passando a trabalhar em casas comerciais como correspondente e tradutor – vieram à tona dezenas de personalidades, dotadas de complexidade estilística e ideológica, a exemplo de Alberto Caeiro, mestre de todos os demais heterônimos, poeta bucólico, que teve na natureza a sua matéria-prima e nos sentidos fonte de inspiração e de transformação; Ricardo Reis, poeta neoclássico, influenciado pela cultura greco-romana e pelo epicurismo, com uma produção poética voltada ao tempo pela valorização do carpe diem horaciano; Álvaro de Campos, poeta futurista, símbolo da revolta e do incorformismo, da lucidez do ser humano frente à modernidade; e Bernardo Soares, autor do célebre Livro do Desassossego e considerado o heterônimo mais próximo de Fernando Pessoa ortônimo.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa, Mensagem
As publicações em vida de Pessoa traduzem-se em livros de poemas publicados em inglês – língua que o autor dominava, além do francês e do português – e em Mensagem (1934), expressão poética de um projeto realizado ao longo dos anos de 1913 e 1934. Postumamente, foram publicados diversos livros do autor, entre os quais se destacam coletâneas de poemas de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além do conjunto de fragmentos intitulado Livro do Desassossego (1982), composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Nessa obra-prima, encontramos centenas de fragmentos, escritos em diferentes épocas e com intenções por vezes antagônicas, mas que formam, nessa multiplicidade de dizeres, a unidade complexa do autor. Cada fragmento pode ser lido como um estilhaço da alma de um escritor em profusão criadora e filosófica. Sobre o livro, Richard Zenith afirma que Pessoa trabalhou nessa obra o resto da vida, mas, quanto mais a preparava, mais inacabada ficava.
Inacabada e inacabável. Sem enredo ou plano a cumprir, os seus horizontes foram alargando, os seus confins ficaram cada vez mais incertos, a sua existência enquanto livro cada vez menos viável – como, aliás, a existência de Pessoa enquanto pessoa. [...] Jamais outro escritor conseguiu passar, de modo tão direto e nítido, a sua alma para a folha escrita. O livro do desassossego é uma fotografia estranhíssima, feita de palavras, a única matéria capaz de captar os recessos da alma aqui revelada.
Richard Zenith, Prefácio ao Livro do Desassossego
A imagem enigmática de Fernando Pessoa inspirou diversas versões pelas artes visuais. O artista e amigo Almada-Negreiros, em homenagem ao mestre, pintou, a óleo sobre tela, em 1954, o quadro Retrato de Fernando Pessoa, inicialmente intitulado Lendo Orpheu, pois a cena retratada refere-se a Pessoa lendo o segundo (e último) número da revista que mudou a história da literatura portuguesa. O mesmo artista já teria desenhado, a tinta da China sobre papel, um retrato por ocasião de sua morte, em 1935 – imagem que ilustrou a notícia da morte do poeta no jornal Diário de Notícias e se tornou uma das mais populares representações do multifacetado poeta. Também António Costa Pinheiro pintou as simbologias que emanam da obra de Fernando Pessoa através da série Os reis (1966), em especial inspirado pelos textos de Mensagem (1934); além disso, após mais de uma década de estudos, Costa Pinheiro publicou, na década de 1980, a coleção iconográfica intitulada O poeta Fernando Pessoa, da qual se destaca Fernando Pessoa - Heterônimo (1978).
Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.
Fernando Pessoa, O livro do desassossego
Impossível é a tarefa de desvelar um gênio da literatura, pois a cada véu que tiramos sobre sua face literária, outra se anuncia em meio aos textos. Fernando Pessoa é intraduzível e, por isso, eterno como a sua literatura. Quem percorre as veredas da literatura pessoana adentra um labirinto obscuro de ideias, do qual é impossível sair completamente. Isso porque o melhor da literatura está no assombro que ela causa, nas chagas que ela abre e no prazer que ela, paradoxalmente, proporciona. Ler Pessoa, nesse sentido, é desassossegar-se, é mergulhar nesse mar interior que flui entre o homem e a história.
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Fernando Pessoa, Poesia completa de Ricardo Reis