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Arte é

Pelo lado gauche da história:
uma breve leitura sobre as tradições gaúchas à luz de Guilhermino César

 

Cimara Valim de Melo

Ora bem, viajar.
O homem é viajante. Busca alguma coisa que perdeu.
Guilhermino César

    
    
Somos a soma de muitas culturas.  A mistura de muitas raças e histórias, que, juntas, puderam dar forma a um passado coletivo repleto de trabalho, lutas e lacunas. Somos feitos de fronteiras internas e externas, nem sempre pacíficas; de limites difusos entre realidades aqui instauradas, que ampliaram nossa diversidade cultural e geraram a busca pela preservação de tradições derivadas de um passado conflituoso, manchado pelo sangue de homens que morreram em prol de terras e ideais, a exemplo de Sepé Tiaraju, no século XVIII, e de muitos farroupilhas anônimos, no século XIX. Somos um povo essencialmente mestiço, que deita suas raízes na diversidade étnica de grupos indígenas, afrodescendentes, espanhóis, portugueses e açorianos, italianos e alemães, além de povos provenientes de outras partes do globo. Um povo com uma geografia e um clima que agem como metáfora da unidade construída em meio a tantas diferenças, desbravadas pelas abordagens historiográficas de pesquisadores como Guilhermino César, Voltaire Schilling, Regina Zilberman, Luis Augusto Fischer, Sandra Pesavento, entre outros.

Para Vitor Ramil, nosso compositor contemporâneo maior, o sul do Brasil limita-se do restante do país por sua condição gauche, derivada de uma série de fatores cronotópicos, dos quais se destacam a localização fronteiriça, o passado de lutas territoriais, de guerras e revoluções, a presença de etnias diversas, frutos dos processos de colonização e imigração, além do clima marcado pelas estações bem definidas e, é claro, pelo frio característico, capaz de geometrizar a paisagem e mudar a perspectiva do indivíduo perante o mundo. Já para Guilhermino César, escritor e historiador mineiro que viveu cinco décadas de sua vida em solo gaúcho, no complexo cultural rio-grandense, em que a região da campanha entra com a parte mais rica de originalidade, a vida literária emerge não apenas da apreciação de valores estéticos, mas de uma motivação psicológica que dá origem a tais manifestações culturais.

Guilhermino César (1908-1993), nos anos de 1920 e 1930, atuou jornais e revistas de Minas Gerais. Em 1943, transferiu-se para Porto Alegre como Chefe de Gabinete de Ernesto Dornelles. Além de cargos políticos ocupados no governo estadual, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e professor catedrático de Literatura na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra, em Portugal. Como escritor, publicou dezenas de textos em história e literatura, através da colaboração em periódicos nacionais e internacionais e da produção de livros, como Sul (1939), romance; História da literatura do Rio Grande do Sul (1956); Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605-1801 (1970); e História do Rio Grande do Sul: período colonial (1970). Conforme a pesquisadora Maria do Carmo Campos, Guilhermino deixou à posteridade um importante legado sobre especificidades histórico-culturais da formação do estado, que examinou à luz de sua experiência europeia. Ao observar o Rio Grande, percebia-o como parte integrante de um todo mais homogêneo, a cultura brasileira, sem deixar de ter recebido a influência platina.


O colorido gauchesco foi assimilado como uma de nossas peculiaridades regionais, dentro da riqueza de tons com que se exprime a cultura brasileira, neste país de proporções gigantescas. Ao passo que, para os platinos, ele configura o próprio instinto nacional a lutar por uma expressão individualizadora.
Guilhermino César


Para Guilhermino, a humanidade rio-grandense foi apresentada aos primeiros escritores da terra, que souberam vincular o tema à motivação psicológica e a implicações sociais. Um exemplo é Simões Lopes Neto, autor de narrativas basilares para a compreensão de nosso legado literário, considerado pelo historiador mineiro como o metal de voz mais vibrante e mais puro da gauchesca brasileira. Inserida na cultura secular do estado, está a vertente tradicionalista, fundada na década de 1940, a qual Guilhermino também via como representação do desejo de afirmação gauchesca através da preservação e da recriação das tradições.


Falei em movimento tradicionalista? É verdade: ali por volta de 1947, das frustrações provocadas pelo Estado Novo, que havia proibido o uso de bandeiras e outros símbolos oficializados pela administração estadual, voltou ao Rio Grande um veemente desejo de afirmação gauchesca, e logo alguns moços se adiantaram, transformando-o em movimento organizado, que hoje existe com estatutos, carta de princípios, congressos periódicos e constantes manifestações sociais. As entidades assim formadas – os Centros de Tradições Gaúchas – são agora do ponto de vista associativo o que há de mais orgânico em remotos lugarejos do interior, onde estimulam sob várias formas o cultivo de velhas usanças.
Guilhermino César


Afora o tradicionalismo dos últimos sessenta anos, as peculiaridades que englobam as tradições gaúchas vêm de longe. Mais que o gentílico para os habitantes do Rio Grande do Sul, o termo ‘gaúcho’ remete-nos ao tempo lendário do passado regional e ao extenso espaço rural dos pampas. Reporta-nos também ao arquétipo da identidade do povo sulino, simbolizada pelo chimarrão e pelo churrasco, pelo apreço a hábitos campeiros, provenientes de uma história de muitas faces, a qual foi construída pela confluência de culturas distintas – a dos índios guaranis, que primeiro extraíram a erva-mate do solo gaúcho; a dos índios pampianos, que usavam boleadeiras e, após a vinda dos jesuítas ao estado, tornaram-se exímios cavaleiros; a dos colonizadores portugueses e espanhóis, que trouxeram ao lugar sua riqueza linguístico-cultural.

O gaúcho evoca o tempo dos primeiros tropeiros, viajantes paulistas que chegaram ao sul em busca do gado solto nas vacarias e aqui se instalaram, formando as primeiras estâncias, responsáveis pela movimentação da economia do estado através da agropecuária, a qual chegou a fazer do sul, entre os séculos XIX e XX, o chamado ‘celeiro do Brasil’. Além disso, a palavra ‘gaúcho’ vincula-se à denominação espanhola platina gaucho, que se refere àquele de origem incerta, ao homem do campo, trabalhador do interior, peão de estância. Mas as origens do termo não param por aí. Uma das hipóteses de suas difusas raízes etimológicas está no termo francês gauche, que significa o que está à esquerda, à margem, fora dos padrões – sentido que se amplia quando rememoramos nossas origens mestiças e à falta de regras do homem campeiro antigo, adepto da liberdade. Outra possibilidade está na palavra indígena guahú-che, cujo sentido é “gente que canta triste”, fazendo-nos lembrar do ritmo melodioso das milongas, que transcenderam fronteiras e aproximaram ainda mais o sul do Brasil de seus vizinhos castelhanos.

Gaúcho do isolamento geográfico e do estilo de vida peculiar, mas que se une, em suas semelhanças e diferenças, à alma brasileira, como salienta Guilhermino. Gaúcho da milonga, da polaridade de ideias, da proximidade com a natureza campeira – gaúcho de silêncios e vazios, preenchidos pelo som do violão ou da gaita; de um repertório vocabular e um conjunto de sotaques típicos, a diferenciá-lo pela linguagem: esse é o mesmo gaúcho que convive com o frio, geralmente espantado pelo calor do chimarrão, que tem no preparo do churrasco um elo entre o urbano e o rural. Forças telúricas revitalizantes formam o regional e o gaúcho, dos quais emergem tradições seculares, que resistem a qualquer tentativa de superficialização proveniente de gauchismos, regionalismos ou tradicionalismos, os quais tantas vezes ofuscam o mundo real adormecido pelo tempo. Um mundo que é despertado graças a lendas, causos e canções. Um mundo que se transfigura pela literatura daqueles que entrelaçaram imaginação e realidade através da história, como um Simões Lopes Neto de Contos gauchescos e Lendas do sul, um Erico Verissimo de O tempo e o vento, um Cyro Martins de Porteira fechada, um Luiz Antonio de Assis Brasil de Videiras de cristal, um Josué Guimarães de A ferro e fogo ou um Alcy Cheuiche de A guerra dos farrapos e Sepé Tiaraju. Um mundo que se faz presente na mão de pesquisadores como Guilhermino César, dedicado a analisar a vida e a cultura dos espaços rio-grandenses, formando um verdadeiro legado histórico para as gerações vindouras.

Redescobrimos, nesse tempo cíclico que nos traz, a cada mês de setembro, o Dia do Gaúcho e a Semana Farroupilha, o quanto somos um povo dotado de uma identidade viva, alimentada pela multiplicidade e pela heterogeneidade de seu povo. O gaúcho é hoje um mito que renasce como uma pequena chama na história coletiva de seu povo – o qual nem sempre está disposto a percebê-lo em seu legado diacrônico, mas que não deixa, por isso, de ser gaúcho. Seja guahú-che, gauche ou gaucho, a imagem do gaúcho é construída e desconstruída a cada dia, sempre que seu passado e suas tradições são resgatados do poço da memória. Dessa forma, toma lugar no centro de nossa história, mesmo que ela esteja à margem da história de outrem. Resgatar algumas das tradições gaúchas é, de certo modo, visualizar, pelo espelho distorcido da cultura, quem fomos, somos e queremos ainda ser.

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